Fernanda Terra - 2016

À Margem do Tempo
Estamos diante de uma instigante série de paisagens criadas através do olhar e das

mãos experientes da artista Stella Mariz. As paisagens enigmáticas, ao mesmo

tempo dramáticas, entrelaçam o passado, o presente e os sentimentos profundos da

artista, incorporando a ideia de simultaneidade de lugares e de múltiplos tempos.

A série nasce em 2014, em viagem à Portugal, terra natal da artista, em que registra

exaustivamente ruínas ao longo de um percurso previamente estabelecido. Essa

atitude nos faz lembrar as viagens realizadas no século XVIII, conhecidas como

“Grand Tour", na qual estudantes da nobreza italiana terminavam sua formação

estudando e desenhando ruínas. Com as ruínas portuguesas fotografadas, a artista

retorna ao Brasil e põe-se a fotografar não somente a floresta tropical brasileira,

como também extensas vistas, em sua maioria litorâneas, que deixam transparecer

o contexto natural e urbano em que se inserem.

Com as imagens em mãos, tem inicio a criação, na qual a artista borda o tempo e o

espaço, por meio da superposição e do entrelaçamento das diversas imagens

impressas em tecido sintético, recortadas e costuradas, uma a uma, utilizando

manta acrílica e tela de aço para dar volume às paisagens, quase cenográficas. As

composições são sobrepostas em telas que são então pintadas, dando vida às

fotopinturas. Neste procedimento, as imagens das ruínas portuguesas, tiradas de

seu contexto, integram parte da floresta tropical do Rio de Janeiro, ganham volume

e destaque e convivem com imagens da paisagem atual da cidade, arranjadas

sempre no plano de fundo.

A artista, de forma consciente e hábil, parte da sensação visual rumo ao sentimento;

utiliza-se da fotografia na captação da realidade, deixando transparecer seus

procedimentos estéticos, elegendo os enquadramentos, os enfoques, a composição

e a luz das paisagens. Nos rearranjos formais e intuitivos, alinhava,

simultaneamente, distintos lugares, tempos e afetos.

Suas paisagens são capazes de gerar fortes sensações, talvez estranheza, ou um

estado de silêncio e solidão, como na categoria de apreciação estética do sublime,

tão comum nas pinturas de paisagem do final do século XVIII, início do XIX. Suas

paisagens tampouco são pitorescas. Estão impregnadas de um viés irreal ou

imaginário, no entrelaçamento de tempos e espaços; nos tecidos vermelhos

retorcidos que escorrem das ruínas banhando as paisagens de metáforas do

inconsciente; nos reflexos na água de arquiteturas não existentes; na luminosidade

chapada das paisagens; e nas sombras que percorrem arquiteturas de forma

independente dentro das composições.

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