Peles

Barrocos I, II e III.

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O Barroco é definido pela dobra que vai ao infinito; o tecido, vestimenta que libera sua subordinação ao corpo. Dobras que já não se explicam pelo corpo e tem sua própria autonomia. Um drapeado sob forma de fluxo, uma potência, como alegoria  que desvela um tempo indeterminado pela combinação do eterno e do instante.

 

Barrocos são trabalhos em que evidencio um corpo exposto, em que o que interessa não é a imagem/corpo, porque no contemporâneo ela está destituída de importância plástica, pelo excesso de reprodução e exposição. A pele e carne expostas, despojadas das suas vestes, despojadas da sua proteção perderam seu valor. O que interessa é o que devém destas imagens, do que dela se subtrai e acrescenta.

 

Estamos num momento de explosão de um barroco que mostra e re-mostra, aquilo que antes era velado e cuidado. É o barroco de uma falta de pudor pela dor do outro. É um Barroco às avessas. São as “dobras” levadas ao infinito pelas redes sociais, do sangue e da tragédia não mais encobertos.

 

O Barroco não se encontra mais nos drapeados que recobriam os corpos. O corpo está nu. A pele está exposta e dessacralizada.

 

É a dilaceração deste corpo que passa a ser de interesse; é o que dele se subtrai, o que dele se produz, o que dele é consequência e o que dele se transforma. Os horrores e o sofrimento não são mais encobertos, são midiatizados. Viram objetos de exposição, objetos para atrair a atenção. É a estética da mídia que viraliza e espetaculariza a dor. 

 

Pela repetição até a náusea, tornamo-nos imunes à dor do outro, e vivemos uma perversidade implícita que nem mais percebemos. É o desdobramento desta dor, é o Barroco desta dor que eu quero mostrar.

 

O instante do movimento que outrora se buscava na escultura, a fluidez, o corpo belo, estético e harmonioso não interessam mais. O corpo está duro, a pele dura, a pele exposta, a pele crua; rígida. 

 

O que entranha no nosso olhar a cada dia é o fluxo e o desdobramento da dor, do sangue, do horror. É isto que eu quero chamar a atenção e re-subjetivar. 

 

Ao extruir o vermelho e expulsá-lo do corpo sob a forma de alegoria, de um Barroco, restituo a potência ao que hoje tornou-se vulgar.


Quando mostro meu trabalho, a 1ª pergunta que é feita é: Isto é sangue?

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